Monte Roraima – As aventuras e perrengues de uma novata.

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Por incrível que pareça essa história começou em 2014, assistindo a novela Império, quando ouvi falar pela primeira vez do Monte Roraima. A principio, não dei muita atenção, mas com o passar do tempo, comecei a notar a grandeza e magnitude desse “cara”, o qual carinhosamente apelidei de Monstrão.

Confesso que, só de pesquisar sobre ele, assistir a muitos vídeos, ler relatos, ver fotos, senti arrepios, mas ao mesmo tempo, passamos a nos tornar conhecidos. Então vou apresentá-lo: O Monte Roraima, sonho de consumo de muitos viajantes, é uma montanha localizada na América do Sul, Cordilheira Escudo das Guianas, na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana. Constitui um tepui, um tipo de monte em formato de mesa, característico do planalto das Guianas. Está a uma altitude de 2.810 m com proeminência de 2.338 m, apresenta um ambiente totalmente diferente da floresta tropical e da savana que se estende a seus pés (perceberam o tamanho desse cara?).

Costumo dizer que, uma viagem começa no momento que decidimos o local e daí pra frente pesquisamos guias, preços de passagens aéreas, equipamentos e o melhor dia para partir, e foi justamente com relação à data que decidimos nadar contra a maré. Enquanto praticamente 99,99% da população se aprontava para o carnaval 2016 com muita folia e curtição, eu, Aninha e, meus parceiros de crime, fizemos parte da exceção. Optamos por trocar as batidas dos tambores pelos “cri-cris” dos grilos e os holofotes do Sambódromo pelas luzes naturais das estrelas.

Revisei minha cargueira, que estava com 10 quilos e parti para aquela, que até então, seria a maior aventura de minha vida.

Primeiro dia – Nosso primeiro encontro.

Saindo de Boa Vista – Roraima, atravessamos a fronteira e chegamos a Santa Elena de Uairén – Venezuela. Senti que a aventura começou de fato quando vi minha mochila sendo colocada em cima do Jipe 4×4 que levaria a expedição até a Comunidade Indígena Paratepui de Roraima.

Entrada na Comunidade Indígena Paratepui de Roraima - Foto: Ana Paula Orph.

Entrada na Comunidade Indígena Paratepui de Roraima – Foto: Ana Paula Orph.

Na saída o motorista do Jipe nos falou: “Aventureiros, despeçam-se das suas realidades, pois acabamos de cruzar uma dimensão da qual vocês jamais se esquecerão!”, arrepiei!

No primeiro dia, começamos nossa caminhada de aproximadamente 5h (14km) em direção ao acampamento base chamado Kukenan, localizado a 1.050m de altitude. Durante o caminho fomos agraciados o tempo todo com belíssimas imagens, paisagens únicas da savana.

À medida que avançava em direção ao Monstrão, minha sensibilidade aumentava como se estivesse iniciando uma conexão com o lugar. Após algumas horas na trilha já é possível visualizar o Kukenan e o Gran Sabana que juntos formam o Monte Roraima. Lá estava ele – majestoso e misterioso atrás das nuvens, e eu “congelada”, fui tomada pela emoção do momento. Realmente inesquecível. Foram milhares de clicks até que finalmente chegamos ao acampamento, nos acomodamos em nossas barracas, tomamos banho no Rio Tek, jantamos a comida preparada pela equipe de apoio e tivemos a honra de vislumbrar um céu extremamente estrelado (eu nunca tinha visto um céu tão cheio de estrelas!).

Kukenan - Foto: Ana Paula Orph

Kukenan – Foto: Ana Paula Orph

Importante deixar registrado que sofri pacas com as botas de trekking, mesmo utilizando as meias corretas e tendo usado os “pisantes” por um mês antes do passeio, ganhei meu primeiro par de bolhas (inesquecível).

Segundo dia – Chegando aos pés do Monte Roraima.

No segundo dia, ao agradecer por ter aberto os olhos, fiquei muito mais agradecida quando sai da barraca ao ver o Monstrão me saudando.

Depois do delicioso café da manhã mega reforçado, começamos a arrumar tudo para iniciar mais uma etapa: caminhar por 4h (9km), para chegar ao outro acampamento base, a 1.870m de altitude, aos pés do Monte Roraima.

Nesse percurso atravessamos o Rio Tek, que possui água geladinha que refresca os pés. Também tivemos que nos ensopar de repelente, pois havia uns mosquitinhos chamados “puri-puri” que adoram turistas (se apaixonaram por mim!). Atravessamos também o Rio Kukenan e aproveitamos para dar uma breve parada para descansar.

Enquanto caminhava em direção ao paredão, muitas vezes, por ser praticante de trail run, tive vontade de sair correndo, mas mantive o controle e foquei em minhas passadas, afinal eu estava ali praticando uma atividade totalmente fora da minha rotina e não era hora de treinar minha velocidade.

Chegamos ao segundo acampamento (ufa!). Banhamo-nos num riozinho com uma água geladíssima e que nos proporcionou massagem e descanso aos nossos pés que, a essa altura do campeonato, eram só bolhas (podem acreditar, os meus calcanhares estavam irreconhecíveis mesmo!). Felizmente, estávamos muito bem assessorados pela guia da agência contratada, com seu kit de primeiros socorros, seu carinho e respeito pelos aventureiros.

Segundo acampamento base - Foto: Ana Paula Orph.

Segundo acampamento base – Foto: Ana Paula Orph.

Durante o jantar, recebemos as últimas orientações quanto ao que faríamos no dia seguinte e, confesso que, fui deitar muito pensativa e eufórica, pois em nosso próximo trajeto teríamos uma escalaminhada por entre uma cachoeira. Foi uma noite complicada, pois choveu bastante e ventou muito, a ponto de, eu e minha parceira de barraca, deixar tudo preparado para dar no pé se necessário, no entanto, passamos sem complicações.

Terceiro dia – O maior desafio da jornada.

Eis então, o terceiro dia começando a caminhar por mais 3h ou 4h (3 km) por selva, raízes e pedras soltas. Literalmente me vi no filme “Jurassic Park” parecia que a qualquer momento um dinossauro cruzaria nosso caminho (que loucura). Felizmente não encontrei nenhum, mas fui agraciada com uma visão rica, vegetação e paisagens naturais de tirar o fôlego, sensacional. Verdadeiras obras de arte!

A subida era muito íngreme e então, comecei a sentir os 10 quilos da mochila, o cansaço virou uma constante e, de repente, os pensamentos de desistência e fraqueza me perseguiam. Quando me dei conta estava sendo tomada por eles.

Havia 21 pessoas em nosso grupo, sem considerar a equipe de apoio, algumas com mais prática, outras no nível intermediário e outras, como eu, iniciando na atividade. Natural que eu ficasse para trás, mas minha mente era maldosa, me traía com pensamentos de abandono e contaminava o restante do meu corpo. No entanto, um guia local, percebeu minha luta e, num ato amigo, solicitou a outro aventureiro que ajudasse a carregar um pouco a minha cargueira até que eu pudesse recuperar minha “autoestima”. Esse guia me olhou tão profundo nos olhos e, de maneira simples, me trouxe de volta ao caminho dizendo “Todos nós temos nosso momento de fraqueza, todos nós ok!”, concordei com ele e recebi um grande abraço repleto de energia e força que me conduziu até o restante do grupo.

Quando nos reunimos novamente, fui surpreendida com a decisão do grupo em ter que seguir no pelotão de frente, pois devido à temperatura muito baixa e chuva, os lentos deveriam ser os primeiros a subir de modo que todos chegassem juntos, me revoltei na hora, mas depois entendi a estratégia.

Iniciamos então a escalada sendo banhados pela água “congelante” do Passo das Lágrimas, uma cachoeira que fica um pouco antes da entrada/saída do Monte Roraima. A sensação era de milhares de agulhadas dadas ao mesmo tempo. Enquanto recebia essa rajada de água gelada, pude ter a sensação plena de que a minha alma estava sendo tocada e literalmente lavada. A cada avanço, minha certeza de que estava me conectando a ele aumentava e me dava forças para prosseguir.

Com pouco mais de 7km para concluir a chegada, ergui minha cargueira como símbolo de desafio aceito! - Foto: Piter Dias.

Com pouco mais de 7km para concluir a chegada, ergui minha cargueira como símbolo de desafio aceito. – Foto: Piter Dias.

Era incrível olhar pra cima e ver que o momento de nos encontrarmos se aproximava, porém mais incrível ainda era olhar pra baixo e deslumbrar o que eu já havia conquistado e tudo aquilo que havia deixado para trás.

Quando enfim chegamos (2.800 de altitude), percebi que a temperatura caiu consideravelmente, a nossa guia veio a meu encontro e disse-me “Aninha você chegou! Viu que ele não é difícil?! Ele é show! Conseguiu guerreira!” Não consegui conter a emoção.

Passada a euforia da vitória me dei conta que estava completamente molhada. Chovia e ventava forte, senti um frio intenso e não parava de tremer. Estava entrando em hipotermia. Fui rapidamente socorrida em um dos pontos de concentração do grupo e, ao chegar ao acampamento, que era em uma caverna, recebi todo o amparo necessário. Foi um momento de muita tensão e preocupação. Adormeci refletindo sobre o propósito da viagem, de tudo que havia enfrentado até aquele momento e não aceitava ficar naquele estado, mas estava muito aflita, pois se eu não melhorasse, a aventura no terminaria ali.

Quarto dia – Uma experiência divina no Monte Roraima.

Amanheceu e adivinhem? Quarto dia e, eu estava nova em folha. Mais energizada que antes. Minha vontade de prosseguir foi mais forte que a hipotermia leve, portanto, botas nos pés, mochila de ataque nas costas e partiu desbravar o Monte Roraima!

O Monstrão é um lugar inóspito sim, mas de uma identidade ímpar. Havia momentos de muito calor e ao mesmo tempo começava a chover, não havia uma previsão certa de tempo. As rochas daquele lugar são realmente impressionantes, elas parecem ter vida. As formações são incríveis, são únicas e nos deixa intrigados.

Caminhamos por cima do Monte, a cada passo dado, eu pedia permissão a ele para prosseguir. Nesse quarto dia, conhecemos as piscinas naturais chamadas de Jacuzzi, passamos pela Catedral, caminhamos pelo Vale dos Cristais, conhecemos a Grande Janela, também chamada de La Ventana e escalamos seu ponto mais alto, a Pedra Maverick (2.810m). Este foi certamente um dos momentos mais excitantes da expedição, o coração já estava literalmente entre os dentes a ponto de saltar pela boca. Assim que tive consciência de que estava em cima do Monstrão não consegui ficar de pé e precisei me sentar. A energia daquele lugar é tão forte e tão grandiosa que seria falta de educação da minha parte não reverenciar.

Foi um momento reflexivo. Toquei em uma plantinha que nasce em cima da pedra e mentalizei muitas pessoas, pensei sobre minha vida e agradeci por tudo que vivi até aquele momento. Coloquei para fora toda minha gratidão por poder estar em um lugar sagrado e mágico. Lá de cima, tive um daqueles raros momentos de conexão com a força criadora e tive a certeza de que Deus é maravilhosamente perfeito. Meus olhos puderam contemplar tudo aquilo que consegui enxergar dentro da minha limitação, no entanto, o meu coração e alma puderam ir além do físico.

Com as mãos estendidas, como um ato de cumprimento, verdadeiramente senti que o Monte Roraima e eu nos conectamos. Foi um momento incrível! Inexplicável!

Em cima do Monte Roraima. O ponto mais alto, a Pedra Maverick - Foto: Ana Paula Orph.

Em cima do Monte Roraima. O ponto mais alto, a Pedra Maverick – Foto: Ana Paula Orph.

Retornamos então ao acampamento da caverna e quando estava deitada, comecei a pensar na volta, pois no dia seguinte iniciava-se a despedida.

O retorno e a emoção da conquista.

No caminho de retorno, sofri novamente com o peso da mochila, foram dois dias de descidas duras e pequenos montes íngremes, mas os parceiros de trilha não me deixaram desanimar e passei a fazer sombra das passadas deles a fim de chegar bem.

À medida que o Monte Roraima ia ficando para trás, o coração apertava, mas era preciso seguir em frente, tínhamos 26k pra “comer”!

Quando finalmente chegamos ao portão do parque, onde tudo começou, senti uma força muito grande vindo em minha direção. De repente me vi no chão de joelhos, chorando feito criança. Eu havia concretizado um sonho!

Chegada ao portão - Foto: Piter Dias

Chegada ao portão – Foto: Piter Dias

Nesta jornada tive a oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas, das quais algumas pouco conversei e outras que tive mais aproximação, mas no final, formamos um grupo super unido e, principalmente, feliz, rodeados de energia positiva.

Também é importante registrar que esse de tipo de atividade ajuda a população que trabalha nesse período, são verdadeiros heróis, pois eu estava com equipamentos de qualidade enquanto eles, os carregadores, não possuíam quaisquer tecnologias para atuar durante as travessias. Os guias foram fundamentais e nos davam a todo o momento lições de vida.Tudo isso não teria sido possível sem a ajuda da AFCC Aventuras  e a Mantra Adventure que contrataram os guias locais e organizaram toda a expedição, inclusive com palestras informativas antes da viagem. Super recomendo!

Obrigada Monstrão, você é um ser magnífico, que me ensinou muito e que merece acima de tudo o respeito de todos que um dia ousaram caminhar por suas trilhas sagradas.

Tão importante quanto ir, é poder retornar com uma bagagem pesada de histórias e vivências!

Quem quiser dicas e saber um pouquinho mais sobre essa aventura, entre em contato pelo facebook, minha página ou Instagram.

“Não tenha medo de viver, de correr atrás dos sonhos. Tenha medo de ficar parado”. (Anita Garibaldi)

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About Author

Ana Paula Orph

Aninha é formada em Administração de Empresas e é especialista em Recursos Humanos. Praticante amadora de trail run desde 2014, acredita que viver de verdade vai muito além dos limites que a rotina diária nos impõe, por isso, sempre que pode, abandona o escritório para se aventurar por ai.

17 Comentários

  1. Élidi Nantes on

    Amei a matéria! Conheço a Ana e vi os preparativos e depois suas histórias no ‘monstrão’. Ana você é um exemplo!

    Beijos Élidi!

  2. Bernadete on

    Que relato magnífico, Aninha! Revivi toda a aventura lendo o teu texto. Amei querida!!! Parabéns por mais essa vitória na sua vida e com certeza, muitas outras virão. Grande beijo! E realmente, estar naquele lugar , confirma o quão Deus é maravilhoso.

    • Ana Paula Orph

      Beeeeeeeee sua linda!
      Obrigada por ter sido um presente na minha vida!
      Obrigada por ter apresentado o seu Par de Tênis aos meus kkkk
      Obrigada por ter compartilhado sua alegria!
      E vamos sim concretizar mais sonhos viu!
      Deus é tremendo!
      Beijocas!

    • Ana Paula Orph

      Saaaaaaaaaaaa,
      Menininha linda!
      Obrigada por toda força viu!
      Esse relato só está aqui pq você foi tremendamente tocada e tenho certeza de que muitos serão!
      Obrigada pela oportunidade e confiança!

      Beijocas!

  3. Gilson Pipino on

    Aninhaaaa… Espetacular sua história no monte!!! assim mostramos as pessoas o quanto vale a pena desconectar se, é viver momentos de tamanha emoção em lugares especiais!!!
    Parabéns…

    • Ana Paula Orph

      Aêêêêêê Aventureirooooo!!!

      Obrigadaaaaaa!!!

      Você como ninguém sabe e tem a consciência da emoção que vivi naquele lugar!
      A Natureza é DIVINA!

      Beijocas!

  4. Aninha
    Que relato lindo, e que alegria poder guiar este grupo de pessoas tão diferentes e tão especiais! Que alegria compartilhar da sua superação, força e emoção…
    Como costumo dizer… Subir uma montanha nunca é fácil, mas a vista lá do alto sempre faz valer a pena!
    Em nome da Mantra Adventure e da AFCC agradeço a confiança e a parceria nesta linda jornada…
    Suba as montanhas da vida e aprecie sempre a paisagem!
    Um beijo enor.e em seu coração 💜

    • Ana Paula Orph

      Laila ENERGIA QUE ROLA o tempo todo!

      Tão importante quanto realizar um sonho dessa magnitude é poder agradecer àqueles que ajudaram a materializar!

      Obrigada por tudo e bora desbravar outro Monstrão, pois tenho certeza de que tem!

      Beijoca do tamanho do MONTE RORAIMA!

  5. Victor Melo on

    Muito legal o seu relato, fez eu viajar junto com você.
    Espero um dia viver fortes emoções no Monte Roraima como as suas.
    Beijos

    • Ana Paula Orph

      Falaííííííííííí Victor!

      Fico muito feliz em saber que conseguiu viajar nesse relato!

      Mas te digo uma coisa: ESTAR LÁ É MUUUUUUUUUUUUUUUITO MELHOR!

      Tenha certeza de uma coisa: se você realmente quer, todas as coisas cooperarão para que possa realizar viu!

      Se precisar de alguma dica sobre esse cara, dá um toque tá!

      Super beijo!

  6. Carlos Passos on

    Espetacular Ana, simplesmente sensacional!! Seu relato foi tão bom que é como se eu estivesse lá lendo e sentido o que você sentiu. Parabéns, faça mais isso e nos brinde com mais relatos, em breve estará no programa Planeta Extremo!!! grande abraço!

    • Ana Paula Orph

      Show Guerreiro!!

      Muito obrigada pelo seu carinho!

      Certamente farei mais e mais e fico feliz em saber que você viajou nessa aventura também, mas como já mencionei : ESTAR LÁ É MUUUUUUUUUUUUUUUITO MELHOR!

      Bora pra próxima então?

      Super obrigada!!!

      Abração!

    • Ana Paula Orph

      Bora então Ricardo!

      A aventura já nasceu ai dentro do seu coração! Esse Monstrão é incrível!

      Se precisar de alguma dica fique a vontade para me acionar!

      Abraços!!

  7. Fabiana Moustakis on

    Obrigada por dividir essa experiência INCRÍVEL conosco!
    Senti ainda mais vontade de fazer o mesmo, e poder sentir
    o quão especial é!!! Foi um prazer te conhecer, mesmo que virtualmente.
    Beijos!

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