O delicioso clichê: “largar tudo e ir embora”

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Quanto mais velha a gente vai ficando, mais vai entendendo um monte de coisas. Uma delas é que a vida, na verdade, é um grande clichê. Cada época tem o seu e o da nossa geração, eu diria, é o largar tudo e ir embora. Tem gente que se apavora quando escuta essas histórias – mas ela está fugindo do quê?, tem aqueles que admiram, os que gostariam de fazer o mesmo e os que não estão dispostos a falar sobre o assunto. Pois, há dois anos eu larguei tudo no Brasil pra morar na Europa e virei estatística. Nesse caso, clichê. E tive que explicar muitas vezes coisas como: não sofri nenhum trauma, não fui despedida do trabalho, nem despejada de casa, não estava sendo procurada pela justiça nem pelo Banco Central. Mas, então, por quê? Vou explicar.

Quando eu era pequena lá em Barbacena, ou melhor, em Campo Grande (MS), meu sonho era ser correspondente de jornal. Não importava a editoria nem em que canto do mundo eu teria que estar. Assistia e lia reportagens de jornalistas como Pedro Bial, Ilze Scamparini e Ricardo Kotscho, e ficava imaginando como seria aquilo de morar em outros países, se comunicar em outras línguas, conhecer culturas e modos de vida tão diferentes e tão profundamente a ponto de compartilhar isso com todo mundo, não saber o nome das ruas nem como chegar a lugar nenhum, ter outra perspectiva sobre tudo.

Naquele tempo, a viagem mais longa que eu fazia era da capital do Mato Grosso do Sul, onde nasci, a Ponta Porã, pras compras de Natal. Quando completei quinze anos, troquei o tradicional baile de debutantes por uma ´grande´ viagem e vi o mar pela primeira vez. Foi em Niterói-RJ, na praia do Saco. O tempo passou e comecei a viajar com amigos. Tive a sorte de encontrar a turma certa: sem dinheiro, sem trabalho, mas com uma inexplicável habilidade de fazer milagre com a mesada, dois ou três amigos com idade pra dirigir e muita vontade de pegar a estrada. Aproveitávamos feriados e fins de semana pra conhecer tudo o que estivesse num raio de até 7h ou 8h da nossa casa.

Pouco depois, segui o chamado da infância e entrei pra faculdade de Jornalismo. Nessa época, já ganhando uns trocados com estágios, as distâncias percorridas ficaram maiores. Conheci outros estados, voei de avião pela primeira vez e, quando comecei a viajar a trabalho, descobri a sensação de estar plena e realizada.

Me formei e viajar já não bastava. Queria viver em outro lugar. Já trabalhava com assessoria de imprensa, então tinha deixado pra trás a ideia de ser correspondente internacional de algum grande jornal ou revista. Mas, a vontade de morar fora continuava firme e forte. Adaptei temporariamente o grande plano à vida real, substitui o exterior pelo interior, e mudei com duas malas pra Camapuã, uma cidadezinha com 12 mil habitantes. Finalmente estava morando em outro lugar! Mas, sabia que não acabaria ali e já pagava, em longas parcelas, um pacote de intercambio em Queenstown, na Nova Zelândia.

Até que experimentei a minha primeira grande encruzilhada, aqueles momentos em que você tem plena consciência de que a sua escolha, qualquer que seja ela, vai definir o rumo da sua vida. Me apaixonei e escolhi ficar. Desisti do intercambio na Nova Zelândia, que já estava pago, e fui morar em São Paulo. Me apaixonei de novo, desta vez, pela cidade. E aí, duplamente apaixonada – pelo namorado e pela selva de pedras – me mudar pro exterior passou de sonho a um plano engavetado nas profundezas da minha alma. ´Deixa pra uma outra vida´, pensava.

Porém, não era para sempre. Anos depois, já solteira e com a vida profissional bem encaminhada, comemorei meus 30 anos com uma viagem de 30 dias pelo meio-leste europeu. Sozinha. Tinha em mãos somente a passagem de ida e volta, reserva em um albergue na cidade de chegada pra passar tranquila pela imigração e nada mais. Me comuniquei em outra língua e ouvi muitas outras que nem sabia de onde vinham, conheci de perto culturas e modos de vida completamente diferentes, não conseguia sequer pronunciar o nome das ruas muito menos sabia como chegar a lugar nenhum, tive outra perspectiva sobre tudo. Agora, volte ao primeiro parágrafo e você vai entender o que aconteceu daqui pra frente.

Nunca mais fui a mesma. Ou será que voltei a ser aquela menina da cidade pequena com um sonho grande? Entrei no avião rumo ao Brasil chorando, mesmo!, e sem ver nenhum sentido na direção que tinha dado à minha vida. Não amava mais São Paulo, não me entusiasmava mais com a minha aparentemente próspera carreira, não me comovia mais com meu confortável e estável emprego, carteira assinada, bom salário, viagens a trabalho por todo o Brasil, bônus ou benefícios. Ficar longe de família e amigos já não era um problema porque nas minhas andanças eu tinha aprendido que a gente leva as pessoas com a gente. Eu queria largar tudo e ir embora. Mas, pra onde? Não fazia ideia. Como? Sabia que tinha direito à cidadania italiana. Mas, e como fazer esse processo burocrático sozinha? Ou, com que dinheiro vou pagar um advogado pra me ajudar? E depois? Como eu vou me sustentar até conseguir um emprego na minha área? E se não der certo? O que eu vou fazer se tiver que voltar ao Brasil depois de tanto tempo afastada do mercado? Será que eu enlouqueci?

Eram muitas perguntas sem respostas e, por outro lado, uma vontade louca de largar tudo e ir pro mundo. Mas, maior do que o medo de deixar tudo pra trás e se atirar no escuro, passou a ser o medo de um dia olhar pra trás e sentir uma nostalgia avassaladora por nunca ter me permitido viver essa experiência com a qual eu sonhava desde criança. Isso, sim, me aterrorizava. E com 30 anos, pensava: é agora ou nunca.

Como assim largar tudo?

Barcelona

Um ano depois, continuava tão decidida quanto perdida sobre como fazer aquilo realmente acontecer. Eu que sempre segui o menu profissional tão à risca – escola, faculdade, estágio, especialização -, não conseguia enxergar como migrar minha profissão pra um outro país de uma maneira rápida, barata e fácil. Só via uma saída: fazer uma pós-graduação no exterior, e foi aí que foquei. Pesquisei muito e desanimava cada vez que fazia as contas do custo total. Passei um ano patinando nessa ideia e tentando encontrar outros caminhos. Até que chegaram as próximas férias e eu voltei pra Europa.

Diferente do que fazia nas viagens anteriores, desta vez fui em grupo e a rota foi definida de acordo com a residência de amigos que já moravam por lá há algum tempo. Entre Portugal e Espanha, essa viagem, digamos, terminou de mudar a minha vida. Conversando com esses já experientes expatriados, encontrei todas as respostas e a coragem que me faltavam. Vi que todas as minhas preocupações eram pequenas se comparadas com a felicidade que via no rosto dos meus amigos. Uma paz que saltava dos olhos. Eu me imaginava ali, naquele mesmo dia a dia, com toda aquela liberdade e tranquilidade, vivendo daquele jeito tão diferente e aprendendo tantas coisas. Dessa vez, ao invés de chorar, voltei pra casa com uma felicidade maior do que o Oceano Atlântico e convicta de que só estava indo ali arrumar minhas coisas pra voltar. E no verão seguinte voltei. De vez.

Entre a decisão e a partida, ouvi infinitas vezes aquele famoso “você está louca”, ou “mas o que você vai fazer se der errado?”, “como e do quê você vai trabalhar?”, “você já não tem mais 20 anos”, “você vai jogar seus estudos e sua carreira no lixo pra ter um subemprego na Europa?”, “Vai mesmo largar tudo e ir embora?”…… Todas aquelas perguntas e afirmações que eu mesma me fazia até pouco tempo atrás. Mas, a minha hora tinha chegado e não havia mais espaço pra “mas”, “e se” ou “será”. Era um delicioso e definitivo “sim, eu vou”. Em um ano, organizei os documentos pro meu processo de cidadania, trabalhei muito e guardei dinheiro como nunca tinha conseguido fazer até então, fiz um bazar com minhas coisas, doei um montão delas, abandonei outras no antigo apartamento e parti. Eu, duas malas, um sonho, nenhuma ideia do que aconteceria e milhares de borboletas que voavam no frio polar que sentia no estômago.

O primeiro destino foi Barcelona, dois meses em pleno verão. Logo fui pra Itália resolver a burocracia dos documentos e, entre pizzas, pastas, vinhos, monumentos de cair o queixo e praias paradisíacas, o que eram algumas semanas se transformaram em seis meses. Uma breve temporada em Portugal e voltei pra Barcelona. Cansei do inverno e fui em busca do sol na Andaluzia. No início desse ano, deixei minha nova casa outra vez e fui pro sudeste asiático. A ideia era aterrizar na Malásia, subir a Tailândia, cruzar o Camboja e, finalmente, chegar ao meu destino final: o Vietnam. O que aconteceu? Entrei na Tailândia e não sai mais. Dois meses depois, voltei à Europa decidida a conhecer Ibiza, a Ilha Mágica no mar Mediterrâneo. E aqui estou. Quanto tempo ficarei? Não sei.

Largar tudo valeu a pena?

Formentera

Hoje, vejo que venho aprendendo a viver de um novo jeito e a ver tudo com diferentes perspectivas. Abandonei antigos receios, conceitos, metas e obrigações do tipo “você tem que”. Você tem que ser feliz, e só! Entendi que tem gente que só deseja uma família e uma casinha de sapê, e está tudo bem. Outros desejam uma posição X na carreira Y, com uma conta bancária Z pelo motivo B, e está tudo bem também. E uns só querem ir por aí, e está igualmente tudo bem. A gente não precisa seguir uma forma pré-fabricada sobre como viver a vida. Vi que aquele desejo incontrolável de sair pelo mundo não era loucura ou fuga, ao contrário, é tão normal que tem até nome: wanderlust, que vem do alemão ’wandern’, a vagar; e ’Lust’, desejo. Ufa!

Hoje, adotei um estilo de vida mais livre, assumo as dificuldades dessa escolha, mas também usufruo dessa minha liberdade como ninguém. Vejo o mundo com o tamanho de uma ervilha. Descobri também uma nova maneira de viajar, sem pressa, sem programações fechadas, sem roteiros. Já entendi que sou dessas que se apaixonam pelos lugares e nesses dois anos de estrada tenho alguns amores acumulados. Mas, hoje tenho um novo amor: Ibiza.

E é direto da Ilha Branca, como os espanhóis chamam esse paraíso no mar mediterrâneo, que compartilho o que já vi e vivi em todos esses lugares por onde passei. Curiosidades, perrengues, dicas lado b, relatos sobre o dia a dia de uma mochileira independente expatriada e low budget. Quer viajar comigo?

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About Author

Renata Eschiletti

Jornalista e ex-relações públicas, há dois anos cansou do conforto do lar e da segurança de um trabalho com carteira assinada e foi em busca de novas aventuras pelo mundo. Descobriu a dureza de um inverno de nove meses e a delícia de viver ao lado do mar. Aprendeu o que é saudade e o que é liberdade. Muda tanto de endereço que ainda não sabe responder a pergunta sobre onde mora.

12 Comentários

  1. Regina Fonseca on

    Que delícia Rê! Jornada linda! Confesso que tô na fase do desapego da falsa estabilidade e depois de conhecer Ibiza ano passado, cogitei o que realmente quero para o resto da minha vida aqui no BR! Kkkk O meu pedacinho de mim (meu filhote) partiu para Blumenau fazer Medicina, então tenho mais alguns anos na luta!…
    Mas até lá… pretendo me tornar uma tatuadora profissional para marcar eternamente vários corpos europeus! 😃 Kkkkk Como vc, mesmo graduada em uma profissão e com 17 anos de exercício, não me vejo nela eternamente e com certeza não acho que a vida seja só o que fazemos, mas como fazemos. E prefiro fazer algo com paixão ou então nem fazer!
    Bom, me aguarde “em breve”, Rê! Até lá sei que vc já vai estar anos luz nessa delícia de jornada!
    Sucesso e muita felicidade pra vc!!!

    • Renata Eschiletti

      Rê, como é bom ler comentários como o seu! Não há nada mais libertador na vida do que descobrir o seu próprio caminho, e não tem problema nenhum se a gente ter vários caminhos ao longo da vida, não é?! Se você está sentindo que chegou a hora de mudar de direção, fique tranquila que o universo te escuta e as coisas fluem naturalmente… Estarei por aí, sim, mas vai que o destino coincide?! Esse mundo parece grande, mas é pequenininho.

      • Regina Fonseca on

        Que o universo sempre conspire positivamente, Rê! E que nos permita vários reencontros e amadurecimentos! Torcendo sempre por essa jornada linda que vc está vivendo e sonhando com o dia que o universo vai conspirar para curtirmos juntas! Aproveita muito e conta tudo! Foi uma das leituras mais gostosas q tive em tempos! Hahaha o início “quando eu era uma criança pequena em Barbacena”… como é bom ler algo que a gente ri e se identifica pq entende! Que a leveza reine sempre na sua alma. Boa sorte e se diverte!!!! Até já já, lindona!

  2. Anônimo on

    Que demais!!! Adorei o projeto, adorei conhecer mais dessa pessoa maravilhosa que você é e das suas escolhas! Keep going! O mundo precisa de mais pessoas com essa coragem, vontade de viver e ser feliz!

  3. Paula Zagonel on

    Nossa muito muito orgulho… desde pequena a Renata foi determinada e dedicada… corajosa e guerreira… Sempre mostrou independência em todas suas decisões e conquistas…, E hoje ela é exemplo para muitos…
    Parabeeeeeeeeeens Re… conte sempre com a gente!!!!

    • Renata Eschiletti

      Obrigada!! Sem a liberdade e o apoio pra seguir meus sonhos que sempre tive da família, nenhum voo seria tão fácil. Fica ligada aqui que vai ter um monte de coisas legais. 🙂

  4. Thiago Mariotto on

    Olá, Renata!

    Gostei muito de seu blog e seus relatos! Tenho 33 anos, sou formado em Relações Internacionais e trabalho na área de importação e exportação há quase 10 anos. Em 2005/2006, morei um ano em Toronto, no Canadá, e esta sem dúvida foi minha experiência mais significativa até hoje. Há algum tempo venho querendo repetir esta experiência, porém desta vez, com mais maturidade. Assisti ao filme “Comer, rezar e amar” e a história mexeu muito comigo, pois acho que preciso de um período sabático como o da personagem, a fim de me encontrar. Não estou feliz com minha rotina há muito tempo, e tenho ânsia por explorar um pouco mais o mundo, porém de maneira mais intensa, não somente em férias ou viagens a trabalho. Gostaria, se possível, de saber um pouco mais da sua experiência de estar cada vez em um lugar diferente, como você faz para se manter, etc. Se possível, poderemos conversar para eu tirar algumas dúvidas com você?

    Muito obrigado pela atenção!
    Um forte abraço,
    Thiago

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